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quarta-feira, 14 de março de 2012

14 DE MARÇO - DIA NACIONAL DA POESIA


No dia 14 de março comemora-se o Dia Nacional da Poesia. A data é uma homenagem ao nascimento do escritor baiano Castro Alves.

Para lembrar esta data postamos poesias de alguns poetas brasileiros.

A DUAS FLORES

São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.


Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.


Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.


Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

Castro Alves




O poeta Antônio Frederico de Castro Alves nasceu na cidade de Curralinho/BA, no dia 14 de março de 1847. Faleceu em Salvador/BA, em 6 de julho de 1871.





A MORINGA

Entre sedes e cansaços
a moringa se reparte,
doando-se em água fresca,
para que os homens se fartem.

No peitoril da janela,
sobre o pinto carcomido,
repousa ao vento da tarde.
Longe, o roçado de milho.

Há marcas fundas na argila,
invisíveis a olho nu.
São cicatrizes de fístulas
abertas no barro cru,

Marcas de sangue e de lágrimas
e suor de gerações,
que, nascidas na miséria,
na miséria morrerão.

A mão que molda a moringa,
molda panela, alguidar,
até que a Morte a liberte
desse ofício de moldar.

Deífilo Gurgel




Natural do município de Areia Branca, Deífilo Gurgel chegou a Natal, em 1944, com 18 anos de idade, para cursar o colegial. Folclorista, poeta, pesquisador, professor e escritor. Faleceu em 06/02/2012



APRENDIZADO

 
Do mesmo modo que te abriste à alegria
           abre-te agora ao sofrimento
           que é fruto dela
           e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
           que da alegria foste
                                    ao fundo
           e te perdeste nela
                                    e te achaste
                                    nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
                                    e em tua carne vaporize
                                    toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta. 
                                                      Ferreira Gullar

Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira (São Luís, 10 de setembro de 1930) é poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo



MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada

Cecília Meireles


Poetisa, pintora, jornalista e professora, Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, na Tijuca, Rio de Janeiro.  Falece no Rio de Janeiro em 9 de novembro de 1964.





POETAS VELHOS

Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.

                                                    Paulo Leminski


Escritor, tradutor, poeta, e professor. Nasceu em 24 de agosto 1944, em Curitiba, Paraná. Faleceu em 07 de junho 1989 (Curitiba, PR).



ELEGIA
 
Não retornei aos caminhos
que me trouxeram do mar.
Sinto-me brancos desertos
onde as dunas me abrasando
tarjam meus olhos de sal
dum pranto nunca chorado,
dum terror que nunca vi.
 
Vivo hoje areias ardentes
sonhando praias perdidas
com levianos marujos
brincando de se afogar,
com rochedos e enseadas
sentindo afagos do mar.
 
Tudo perdi no retorno,
tudo ficou lá no mar:
arrancaram-me das ondas
onde nasci a vagar,
desmancharam meus caminhos
- os inventados no mar:
depois, secaram meus braços
para eu não mais velejar.
 
Meus pensamentos de espumas,
meus peixes e meu luar,
de tudo fui despojada
(até das fúrias do mar)
porque já não sou areias,
areias soltas de mar.
Transformaram-me em desertos,
ouço meus dedos gritando
vejo-me rouca de sede
das leves águas do mar.
 
Nem descubro mais caminhos,
já nem sei também remar:
morreram meus marinheiros,
minha alma, deixei no mar.
 
Pudessem meus olhos vagos
ser ostras, rochas, luar,
ficariam como as algas
morando sempre no mar.
 
Que amargura em ser desertos!
Meu rosto a queimar, queimar,
Meus olhos se desmanchando
- roubados foram do mar.
No infinito me consumo:
acaba-se o pensamento.
No navegante que fui
sinto a vida se calar.
 
Meus antigos horizontes,
navios meus destroçados,
meus mares de navegar,
levai-me desses desertos,
deitai-me nas ondas mansas,
plantai meu corpo no mar.
Lá, viverei como as brisas.
Lá, serei pura como o ar.
Nunca serei nessas terras,
Que só existo no mar.

Zila Mamede

Poetisa e bibliotecária, Zila nasceu em 1928, em Nova Palmeira, Paraíba. Mudou-se com a família para Currais Novos (RN), ainda pequena. Faleceu em 1985.






POEMA DE SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

 Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902. Faleceu no Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987. Foi poeta, contista e cronista.

 
FENECER

Feneço na ausência
dos homens cor de bronze
do prepúcio de púrpura.

Quem me lapidou
esqueceu de me tirar
o veneno.

Ateio
fogo na minha própria
teia.

Como quem preserva fortalezas
corto minhas / alheias
veias.

Feneço, infinitamente
na presença dos homens
que têm grandes pés e nenhuma fé.
Que me rasgam a carne
e me sepultam em suas glandes.

Não fosse eu
uma pessoa de múltiplos escudos
viveria a vida toda
como um único vestido
de veludo. 

                                                  Marize de Castro



Poeta, jornalista, editora, Marize Lima de Castro nasceu em Natal (RN), em 28.12.1962.





                      Arnaldo Antunes

                                                       FOTO: VALDECI DE OLIVEIRA

Arnaldo Antunes nasceu em São Paulo no dia 2 de setembro de 1960. É músico, poeta, compositor, vj e artista visual.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ADEUS AO MESTRE DEÍFILO GURGEL




Após 17 dias na UTI do hospital PAPI (Natal/RN) faleceu na manhã de ontem (06) às 11h50, o poeta, pesquisador, professor e folclorista Deífilo Gurgel.
NOTA DE FALECIMENTO DA FAMÍLIA GURGEL PUBLICADA NA INTERNET
"A família do poeta e folclorista Deífilo Gurgel - Zoraide de Oliveira Gurgel, esposa, e os filhos Káthia, Carlos, Mário Sérgio, Gardênia, Fernando, Cláudia, Alexandre, Marcelo e Ana Márcia - comunica oficialmente, o falecimento do grande mestre da cultura popular do Rio Grande do Norte, ocorrido hoje em Natal.
Diante das inúmeras manifestações de solidariedade, a família agradece encarecidamente aos familiares e amigos, e comunica que tão logo sejam definidos os locais para o velório e sepultamento, todos serão informados.

Deífilo faleceu aos 85 anos, após 17 dias de internação na UTI do hospital PAPI, em consequência de falência de múltiplos órgãos.

Natal, 06 de fevereiro de 2012.


 
DEÍFILO GURGEL 

Poeta na adolescência, somente aos quarenta anos, Deífilo "descobriu" o Folclore e a ele passou a dedicar-se integralmente. Como poeta, escreveu três livros que pretende reunir numa Antologia, com alguns poemas inéditos.

Na área do Folclore, publicou outros quatro livros, sobre danças, João Redondo, Boi Calemba e romanceiro, frutos de suas pesquisas de campo pelos caminhos do Rio Grande do Norte. Tem alguns trabalhos inéditos sobre romanceiro, conto popular e teatro de mamulengos. Nascido em Areia Branca/RN, no dia 22 de outubro de 1926, Deífilo reside em Natal desde 1944.

Considera-se um "provinciano incurável", como Luís da Câmara Cascudo. Em suas pesquisas, tem-se aprofundado nas nossas raízes históricas, o que resultou em descobertas inéditas, como as de 1985, quando coletou exemplos do romanceiro popular ainda não registrados por qualquer outro pesquisador brasileiro, merecendo menção o "Cavalo Moleque Fogoso", de Fabião das Queimadas.
Sobre Deífilo Gurgel, Iaperi Araújo poeta, membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, escreveu:

"Eis o mérito do Prof. Deífilo Gurgel: buscou as fontes primárias. Palmilhou os caminhos do Rio Grande do Norte de máquina fotográfica e gravador a tiracolo, ouvindo gente, batendo em portas e sentando-se nos terreiros das casas humildes para ouvir contarem os fragmentos desbotados da tradição popular."
 
OBRAS:
O Diabo a Quatro (inédito)
Romanceiro de Alcaçus (Natal: UFRN, 1992)
Romanceiro Potiguar (inédito)
Manual do Boi Calemba (Natal: Nossa Editora, 1985)
Danças Folclóricas do Rio Grande do Norte (Natal: EDUFRN, 1995, ed.5)
João Redondo - Teatro de Bonecos do Nordeste (UFRN-Vozes-Petrópolis, 1986)
Câmara Cascudo - um sábio jovial. Discurso de Posse na Academia Mossoroense de Letras (Coleção
Mossoroense, série B, n.º 683, Mossoró, 1989)
7 Sonetos do Rio e Outros Poemas (Natal: EDUFRN, 1983)
Os Dias e as Noites (Natal: Ed. Clima, 1.ed., 1979) 

TRANSCRITO: http://www.enciclopedianordeste.com.br/082.php

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

31/10 - Dia D... Drummond

Hoje, 31 de outubro, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade estaria completando 109 anos se estivesse vivo. 

Homenagem do blog a um dos maiores poetas do Universo.


FELIZ ANIVERSÁRIO, POETA.


Os Ombros Suportam o Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Os versos acima foram publicados originalmente no livro "
Sentimento do Mundo", Irmãos Pongetti - Rio de Janeiro, 1940.  Foram extraídos do livro "Nova Reunião", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1985, pág. 78.
 
BIOGRAFIA:

Carlos Drummond de Andrade

Poeta, cronista, contista e tradutor brasileiro. Sua obra traduz a visão de um individualista comprometido com a realidade social.

Na poética de Carlos Drummond de Andrade, a expressão pessoal evolui numa linha em que a originalidade e a unidade do projeto se confirmam a cada passo. Ao mesmo tempo, também se assiste à construção de uma obra fiel à tradição literária que reúne a paisagem brasileira à poesia culta ibérica e européia.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade natal, em Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro.

Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Excelente funcionário, passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.

Predomínio da individualidade. O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond, Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecundamente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar.

Vem daí o rigor, que beira a obsessão. O poeta trabalha sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana e subjetiva, no que destila do corrosivo, no que desmonta, dispersa, desarruma, do berço ao túmulo -- do indivíduo ou de uma cultura.

Em Sentimento do mundo (1940), em José (1942) e sobretudo em A rosa do povo (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a plena maturidade do poeta, mantida sempre.

Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.

TRANSCRITO: http://pensador.uol.com.br/autor/carlos_drummond_de_andrade/biografia